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Terça, 11 Janeiro 2022 10:21

'Políticas públicas na hora mais escura', por Francisco Gaetani e Gabriela Lotta

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O ano de 2021 se encerrou com a aprovação do Orçamento, transformada pelo Congresso Nacional em patética quermesse secreta. O Legislativo já aloca verbas discricionárias em proporções próximas do próprio Executivo. 

O ano de 2021 se encerrou com a aprovação do Orçamento, transformada pelo Congresso Nacional em patética quermesse secreta. O Legislativo já aloca verbas discricionárias em proporções próximas do próprio Executivo. Voltamos diversas décadas na transparência orçamentária — retrocessos democráticos não têm sido monopólio do Executivo.

Mas o Brasil chegou aqui pela via democrática. O que está acontecendo nas áreas de saúde, educação, meio ambiente, desenvolvimento social, economia etc. foi fruto do processo eleitoral. E o governante da vez nunca escondeu seu projeto (de destruição) para essas áreas.

Sem condições de proporcionar a si mesmo uma narrativa consistente sobre os anos recentes, o país segue fraturado e histérico, incapaz de serenar ânimos e propor alternativas de futuro. Não há clima para idealizações nem para apelos a práticas republicanas. A intensificação do clima de beligerância poderá transformar as eleições num vale-tudo capaz de destruir as últimas camadas de convívio civilizatório.

É momento de alocar a energia possível no dia seguinte às eleições e de evitar que o arrasto eleitoral e o diversionismo absorvam o capital de formulação de que o país necessitará a partir de novembro de 2022. É momento de debate sobre valores que a sociedade prioriza, das políticas baseadas em evidências, da modelagem de alternativas para instrumentalizar escolhas democráticas. É momento da construção de um novo pacto social e de um projeto de futuro republicano e democrático.

O Brasil é um país cheio de problemas para resolver. Este também é um ano para tratar deles — 2022 é o ano de incubar, criar, discutir, contrapor, aprender, inovar e, quem sabe, instrumentalizar o próximo governo.

O país possui acadêmicos, empresários, cientistas, executivos, burocracias, empreendedores sociais e practitioners de excelência mundial. Somos capazes de mobilizar expertise quando e onde for preciso. Cabe a esses profissionais se colocar a tarefa no ano que se inicia.

Os processos em curso de destruição de políticas públicas, de encolhimento do imaginário, de infantilização do debate e de desorientação continuarão ao longo dos próximos meses —com estridência ensurdecedora. Terão como contraponto a resistência de burocracias comprometidas com interesse público, a atuação de uma mídia engajada em reinvenção, a vocalização por parte de um pequeno grupo de empresários republicanos e a mobilização de acadêmicos e de uma sociedade civil crescentemente conectada com valores civilizatórios globais.

As mudanças ocorridas no Brasil e no mundo na última década ampliaram de forma desequilibrada e assimétrica a arena política. Mas declinar protagonismo não é uma opção. Todos e todas devemos nos envolver nas soluções que têm de ser de compromisso coletivo e responsabilidade individual.

O Brasil vive sua hora mais escura em múltiplos domínios. O amanhecer é iminente e, potencialmente, mas não necessariamente, alvissareiro. Precisamos nos preparar para aproveitar as oportunidades. No fim de outubro de 2022, o Brasil terá um novo governo, que assumirá um país dividido, destruído e ávido por alternativas de futuro que ajudem na cicatrização das feridas... Que consigamos, individual e coletivamente, construir um novo futuro para nosso país.


*Professor da Ebape/FGV

**Professora da Eaesp/FGV

Ambos integram a lista dos cem acadêmicos mais influentes no mundo pelo portal Apolitical

Última modificação em Sexta, 25 Fevereiro 2022 08:36

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